Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

madalena barbosa

Infelizmente, só a conheci depois de morta.

 

Madalena Barbosa era feminista, palavra maldita em Portugal, palavra que queima.

Madalena Barbosa não foi nunca ministra. Madalena Barbosa não foi nunca secretária de Estado. Madalena Barbosa não foi nunca presidente da Comissão da Condição Feminina, depois Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, agora Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Madalena Barbosa vivia com a mágoa de nunca ter visto reconhecida em Portugal, do ponto de vista institucional, a real dimensão do seu trabalho, a importância do que foi uma vida dedicada, nos últimos trinta anos, à defesa da igualdade e dos direitos das mulheres. Trabalho quase ignorado em Portugal, mas reconhecido no estrangeiro, onde representou Portugal em inúmeras cimeiras e reuniões, da União Europeia às Nações Unidas, onde discursava.


Madalena Barbosa era feminista, palavra maldita em Portugal, palavra que queima. Era feminista e fazia questão de o proclamar e de o praticar. Foi como feminista que viveu a sua vida profissional e não só a sua militância política, enquanto cidadã. Foi como feminista que morreu, esta semana, com 65 anos, vítima de cancro no pâncreas, no Hospital da Luz, em Lisboa, depois de um mês de internamento. Ao longo do qual - em resposta ao desafio que lhe foi lançado por Helena Roseta - organizou o livro Que Força é Essa, onde deixa o seu testamento político, num acto extraordinário de luta contra o tempo, de trocar as voltas à morte. Desafiadora, como sempre, com um sorriso luminoso na face.

A daring lady. Até ao fim. Dando uma lição de rara coragem, de racionalismo, de força de vontade e de determinação. Estipulando tudo. Seleccionando os textos. Escolhendo e convidando Isabel Barreno para apresentar o livro. Definindo que o lançamento era na Fábrica de Braço de Prata. Fazendo a lista de quem queria que fosse convidado pelo telefone, em seu nome. Um momento único a que tive o privilégio de assistir, assim como tive (tenho e terei sempre) o privilégio de ser sua amiga, desde que a conheci na Faculdade de Letras, em 1979/80, mesmo quando a vida nos afastava, para voltar a unir-nos mais à frente - faço então a minha declaração de interesses, a Madalena (que curiosamente nunca quis que a tratasse por Milena, preferia Mad) é uma referência para mim.

Até ao fim Madalena Barbosa manteve a elegância e a distinção de quem é grande e sabe que o é. A discrição com que sempre trabalhou a favor dos direitos das mulheres e do tratamento igual que estas devem receber do Estado. E fê-lo como profissional competente. Coordenando e elaborando documentos e estudos que serviram de base a mudanças na lei que melhoraram a vida das mulheres portuguesas. Incidindo o seu trabalho em áreas como a saúde, a sexualidade, a pobreza, o trabalho, em suma, sobre diversas formas de reconhecimento de direitos humanos. Sempre implacável e sem contemplações. Sempre rigorosa. Sempre segura da sua causa e do objectivo que a movia: as mulheres.

Madalena Barbosa teve duas fases na vida. Uma primeira, "de submissão" - como escreve no prefácio que escreveu, no hospital, para o livro -, em que foi filha, mulher e mãe de seis filhos. Uma segunda em que fez da sua vida a luta pela "revolução" da igualdade e do reconhecimento dos direitos das mulheres.

A própria Madalena contava o prazer e a felicidade com que viveu o 25 de Abril e como esta data revolucionou de facto a sua vida. Sai à rua e age em função da solidariedade e da justiça. E é a solidariedade e a justiça que a levam ao Tribunal da Boa-Hora no dia em que são absolvidas as "Três Marias": Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Nasce então uma amizade para a vida com Isabel Barreno e Teresa Horta. E nessa noite é fundado em casa de Isabel Barreno o Movimento de Libertação da Mulher, o primeiro movimento feminista pós-25 de Abril e o mais corajoso movimento feminista português, absurdamente considerado radical por alguns - é triste que em Portugal se desconheça o feminismo radical norte-americano, por exemplo -, seguramente senhor de um programa político libertário e defensor dos direitos humanos e da igualdade. Do divórcio ao aborto, estava tudo lá, neste programa político que levou três décadas a cumprir e a que Madalena Barbosa teve a felicidade de assistir e ajudar a conquistar.

É o desassombro do MLM que leva à convocação da manifestação no Parque Eduardo VII para defesa dos direitos das mulheres. A arrogância da ignorância e o atrevimento da estupidez patriarcais reagem. A ideia de que iriam ser queimados soutiens, lançada pelo Expresso, é um rastilho. As manifestantes foram agredidas e refugiaram-se em casa da Madalena, na Sidónio Pais. Madalena Barbosa contava, com desprezo, a boçalidade de toda aquela cena e como, do horroroso do ataque, não teve medo. Assim como nunca teve medo depois disso. Por isso também, a sua vida e obra são uma referência. Uma obra que atravessa três décadas em sucessivos movimentos feministas face a um país que faz gala em ser patriarcal e machista.

A dimensão social e política de Madalena Barbosa, a sua noção de solidariedade e de entrega ao outro levaram-na a militar não só em movimentos sociais. Desde cedo foi militante do PS, a que voltou. Nos anos 90, chegou a integrar a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda. Mas sai em ruptura. O BE aceita em 1999, a pedido do PS, congelar o seu projecto de lei de quotas por sexos nas listas eleitorais. Numa reunião, Madalena Barbosa questiona a decisão e ouve Fernando Rosas perguntar: "O que é isso de mulheres?" Nunca mais voltou. Por muita que fosse a militância partidária, a causa que a movia era o feminismo.

Madalena Barbosa não foi nunca ministra, não foi nunca secretária de Estado, não foi nunca presidente da comissão. Mas foi determinante e única para o espaço de liberdade e de igualdade que nos últimos 30 anos foi conquistado pelas mulheres portuguesas. Jornalista
PS - Obrigada, Ana Vidigal.

 

(excerto de um texto do site "ilga portugal")

 


 


publicado por falta aqui uma corda às 08:05
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2 comentários:
De Pedro de Sousa a 4 de Junho de 2008 às 18:23
Ola

Fiquei deveras impressionado com este texto, realmente escrito com paixão.

Creio no entanto que a palavra "Femininista" é algo que não tem sentido, como passarei a explicar, se tiveres paciencia de ler.

Concordo, e apoio completamente a "luta" pelos direitos iguais, pelo reconhecimento da Mulher como Ser Humano. Mas isso não é femininismo, é justiça.

Femininismo, assim como a sua contra-parte Machismo, não é senão um extremismo de uma posição ridicula, e cada uma delas gera e alimenta inexoravelmente a outra. Em nenhuma delas esta presente a Justiça, a Igualdade, a Fraternidade, e em ultimo caso o Amor.

A crer em Deus, Homens e Mulheres foram criados para se completarem, não para competirem por poder. De resto que tipo de Amor existe no poder?

Vi com os meus olhos o nascimento dos meus dois filhos, uma rapariga e um rapaz... Não posso deixar de respeitar a mãe que sofreu para os ter, nem posso deixar de amar a minha filha que impotente me jazia nos braços.

Por extrapolação, nao posso deixar de respeitar todas as mães e as filhas que polulam à minha volta, e que comigo partilham esta sociedade e este mundo.

Respeito,Justiça, Amor, sim. Femininismo... Bahhh

Volta sempre ao meu cantinho. És bem vindo(a)



De M.Luísa Adães a 28 de Junho de 2008 às 13:23
Lindo o seu artigo sobre a nossa feminista; ela não morreu! Deixou o seu espirito espalhado por todos nós.

Muito bom,

Maria Luísa


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